Nos últimos anos, a agenda ESG, que reúne práticas ambientais, sociais e de governança, ganhou espaço nas discussões sobre sustentabilidade e responsabilidade das organizações. Embora ainda seja frequentemente associada às grandes empresas e ao mercado financeiro, sua aplicação vai além do ambiente corporativo. Os mesmos princípios podem e devem ser considerados em espaços de convivência cotidiana, como condomínios e associações de moradores, onde decisões administrativas produzem efeitos que vão muito além da gestão patrimonial.
Condomínios são verdadeiros microssistemas sociais. Neles, pessoas com diferentes histórias, idades, culturas, necessidades e interesses compartilham espaços, recursos e responsabilidades. Essa convivência exige regras, organização e respeito mútuo, mas também demanda uma compreensão mais ampla sobre o impacto das decisões tomadas por quem administra a coletividade. É nesse contexto que a agenda ESG encontra um campo fértil de aplicação, contribuindo para uma gestão mais consciente, transparente e comprometida com o bem-estar coletivo.
ESG em condomínio começa pela dimensão ambiental
No aspecto ambiental, há diversas medidas que podem ser incorporadas à rotina condominial, muitas delas sem exigir grandes investimentos. A substituição de lâmpadas convencionais por iluminação LED, a instalação de sensores de presença, o controle do consumo de água, a identificação rápida de vazamentos e o aproveitamento da água da chuva são exemplos de iniciativas que ajudam a reduzir desperdícios e despesas. A coleta seletiva, a destinação adequada de resíduos, a compostagem e o cuidado com as áreas verdes também demonstram como pequenas escolhas administrativas podem contribuir para a preservação ambiental.
A sustentabilidade, nesse cenário, é uma preocupação próxima, que cabe em empreendimentos de todos os padrões. Ela começa na forma como os recursos comuns são utilizados, nos critérios adotados para a contratação de serviços e na disposição dos moradores para rever hábitos. Projetos de eficiência energética, instalação de pontos de recarga para veículos elétricos, incentivo ao uso de bicicletas e escolha de espécies vegetais adequadas ao clima local são iniciativas que podem ser avaliadas conforme as características, as necessidades e a capacidade financeira de cada empreendimento. O importante é que as decisões sejam planejadas, tecnicamente fundamentadas e compatíveis com a realidade do condomínio.
A dimensão social: convivência, acessibilidade e respeito
A dimensão social do ESG, por sua vez, está diretamente relacionada à qualidade da convivência. Instalações conservadas e contas em dia fazem parte de um condomínio saudável, e também é necessário que as pessoas encontrem um ambiente seguro, acessível e respeitoso, no qual as diferenças sejam consideradas e os conflitos possam ser tratados de maneira adequada.

Isso envolve atenção à acessibilidade das áreas comuns, às necessidades de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, ao acolhimento de novos moradores e à criação de condições para uma convivência respeitosa entre diferentes gerações. Também envolve a maneira como a administração recebe reclamações, conduz situações de discriminação ou intimidação e encaminha conflitos entre moradores. A atuação do gestor deve buscar equilíbrio, imparcialidade e respeito aos direitos individuais, sem perder de vista os interesses da coletividade.
É importante compreender que a segurança condominial vai além da proteção física do patrimônio. Ela também depende da existência de procedimentos claros, canais adequados de comunicação e uma atuação administrativa capaz de prevenir a escalada de desentendimentos. Em condomínios nos quais os conflitos são tratados com omissão, favorecimentos ou exposição desnecessária das pessoas envolvidas, a convivência tende a se deteriorar. Por outro lado, quando há critérios transparentes, escuta responsável e aplicação coerente das regras, cria-se um ambiente mais propício à confiança e à cooperação.
Os trabalhadores do condomínio também fazem parte da agenda
A dimensão social também alcança os trabalhadores que atuam no condomínio. Funcionários próprios e profissionais terceirizados fazem parte da rotina do empreendimento e contribuem diretamente para seu funcionamento. Por isso, a gestão responsável deve observar o cumprimento das obrigações trabalhistas e contratuais, as condições de trabalho e a atuação das empresas prestadoras de serviços. Além de solução operacional ou financeira, a terceirização exige acompanhamento, fiscalização e atenção às responsabilidades legais envolvidas.
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Governança: transparência e prestação de contas
Nesse ponto, a governança assume papel central. Não há política ambiental ou social consistente sem uma estrutura de gestão pautada pela transparência, pela ética e pela responsabilidade na tomada de decisões. Em condomínios e associações, governança significa administrar recursos coletivos com clareza, prestar contas, observar a convenção ou o estatuto, respeitar o regimento interno e garantir que as decisões sejam tomadas pelos órgãos competentes e segundo os procedimentos aplicáveis.
A transparência financeira, a organização documental, a contratação criteriosa de fornecedores e a prevenção de conflitos de interesse são instrumentos de proteção do patrimônio coletivo e de fortalecimento da confiança entre gestores e moradores, muito além de formalidades administrativas. Nesse contexto, o conselho fiscal exerce função relevante, assim como os mecanismos de auditoria e controle, que podem contribuir para identificar inconsistências, aprimorar procedimentos e prevenir problemas. Uma gestão bem estruturada depende da boa intenção de quem ocupa o cargo e também da existência de processos capazes de assegurar continuidade, controle e prestação de contas.
A participação dos moradores é outro elemento importante da governança. Assembleias, conselhos e canais de comunicação permitem que a coletividade acompanhe a administração, apresente demandas e participe das decisões que afetam a vida comum. Essa participação, contudo, precisa ser acompanhada de informação clara e de respeito às competências de cada instância. A gestão democrática significa garantir que os assuntos sejam conduzidos de forma legítima, organizada e transparente, sem decisões informais e sem que a vontade individual prevaleça sobre as regras coletivas.
O papel do síndico na agenda ESG do condomínio
É nesse cenário que a responsabilidade do síndico e dos dirigentes associativos ganha uma dimensão que ultrapassa a execução de tarefas administrativas. O gestor atua dentro de limites: ele não soluciona sozinho todos os problemas de convivência nem substitui a vontade da assembleia ou os órgãos previstos nos documentos constitutivos. Sua função exige iniciativa, capacidade de organização, equilíbrio e compreensão dos impactos de suas decisões. Cabe-lhe identificar necessidades, propor melhorias, orientar os moradores, fiscalizar contratos e agir com diligência diante de situações que possam comprometer o patrimônio, a segurança ou os direitos dos envolvidos.

Adotar uma perspectiva ESG significa incorporar essas preocupações ao planejamento e à rotina da administração, em vez de tratá-las como ações isoladas ou meramente simbólicas. Antes de implementar uma medida, o gestor pode avaliar seus custos, sua viabilidade, os benefícios esperados e os efeitos sobre os moradores e os trabalhadores. Também pode estimular a conscientização sobre o uso dos recursos comuns, promover a participação dos moradores e buscar soluções que conciliem responsabilidade financeira, respeito às pessoas e sustentabilidade.
Essa atuação cabe em condomínios de qualquer porte, sem exigir projetos complexos ou investimento imediato em tecnologias de alto custo. Em muitos casos, os avanços começam com providências simples: corrigir desperdícios, aprimorar a comunicação, revisar procedimentos de contratação, organizar a prestação de contas, melhorar a acessibilidade ou estabelecer um fluxo adequado para o tratamento de reclamações. O diferencial está na continuidade dessas iniciativas e na capacidade de incorporá-las à cultura de gestão.
Resultados que a gestão responsável entrega
Os resultados podem aparecer de diferentes formas. A redução do consumo de água e energia contribui para o controle das despesas; a manutenção preventiva ajuda a preservar os equipamentos e as áreas comuns; a transparência fortalece a confiança na administração; e a condução adequada dos conflitos favorece a convivência. Práticas responsáveis também podem contribuir para a percepção de qualidade do empreendimento e para sua atratividade no mercado imobiliário, embora os efeitos sobre a valorização dependam de diversos fatores, como localização, conservação, infraestrutura e condições de mercado.
A agenda ESG, portanto, está próxima da realidade condominial. Seus princípios dialogam diretamente com deveres que já fazem parte de uma administração responsável: cuidar dos recursos comuns, respeitar direitos, cumprir as obrigações legais, prestar contas e agir com transparência. A diferença está em reunir essas preocupações sob uma visão integrada, capaz de orientar escolhas presentes e contribuir para a sustentabilidade da coletividade ao longo do tempo.
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Um condomínio que escolhe como viver e se organizar
Administrar um condomínio ou uma associação é lidar diariamente com interesses individuais que nem sempre coincidem e com decisões que repercutem sobre toda a coletividade. Por isso, a qualidade da gestão se mede pelo equilíbrio financeiro e pela conservação do patrimônio, e também pela forma como as pessoas são tratadas, como os conflitos são conduzidos, como os recursos são utilizados e como as decisões são justificadas.
Quando os princípios ambientais, sociais e de governança passam a orientar essas escolhas, o gestor amplia sua contribuição para além das obrigações administrativas. Ele ajuda a construir um ambiente mais organizado, sustentável e respeitoso, no qual a preservação patrimonial caminha ao lado da responsabilidade social. Afinal, além de um conjunto de unidades imobiliárias, o condomínio é um espaço de convivência e corresponsabilidade, cuja qualidade depende tanto das estruturas físicas quanto da maneira como os moradores escolhem viver e se organizar.
Dúvidas sobre ESG em condomínio
O que significa ESG em condomínio?
ESG reúne práticas ambientais, sociais e de governança. No condomínio, isso se traduz em uso consciente de recursos, convivência respeitosa e acessível e uma gestão transparente, com prestação de contas e decisões tomadas pelas instâncias corretas.
Condomínio pequeno pode adotar práticas ESG?
Pode, já que muitos avanços começam com providências simples, como corrigir desperdícios, melhorar a comunicação e organizar a prestação de contas. Assim, cada medida é avaliada conforme a realidade e a capacidade financeira do condomínio.
Quais práticas ambientais são mais simples de começar?
Entre as citadas pela autora estão iluminação LED, sensores de presença, controle do consumo de água, identificação rápida de vazamentos, coleta seletiva e cuidado com as áreas verdes. Em geral, elas reduzem desperdícios e despesas sem grandes investimentos.
ESG valoriza o imóvel no condomínio?
Práticas responsáveis podem melhorar a percepção de qualidade e a atratividade do empreendimento. Ainda assim, a valorização depende de vários fatores, como localização, conservação, infraestrutura e condições de mercado.
Ariádine Grossi, advogada sócia da banca Peixoto e Cintra Advogados Associados, Embaixadora Porter, head na área Imobiliária e Condominial, especialista em Processo Civil pela Fundação do Ministério Público do Estado de Mato Grosso e especialista em Direito Condominial pelo Centro Brasileiro de Estudos e Pesquisas Jurídicas, professora, consultora e palestrante, coautora da obra Experiências Práticas em Conflitos Condominiais, editora ANACON, 2023.
